Essa especialidade que prega uma visão mais integral do paciente, que analisa inclusive suas relações e contexto social, deve ganhar ainda mais relevância nos próximos anos, apontam especialistas.

– Muitos planos de saúde começam a perceber que os médicos de atenção primária reduzem custos, porque ele é resolutivo em mais de 80% dos problemas de saúde da sua população.

O modelo mais focado na atenção primária e em médicos generalistas já é realidade em países como Canadá. O conselheiro Aldemir Soares, integrante da Comissão Mista de Especialidades (CME) do Conselho Federal de Medicina – responsável pelo reconhecimento das especialidades e áreas de atuação médicas –, também defende que o modelo de assistência caminha para favorecer a medicina de família.

– Ainda temos o reflexo dos últimos 30 anos de incentivo aos especialistas. Precisamos voltar atrás e fazer a população entender o papel do médico de família. Voltar a ter referência no médico, não na clínica ou no posto de saúde, fortalecer a relação médico e paciente – diz.

No Brasil e, principalmente em Santa Catarina, percebe-se a concentração de especialistas – que inclui a medicina de família, que também é uma especialidade. A publicação Demografia Médica no Brasil 2015, realizada por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), aponta que 67% dos médicos em atividade em SC têm título de especialista, enquanto no Brasil essa taxa é de 59%. No Estado, para cada médico generalista (sem especialização), há uma média de 2,03 especialistas, o que o coloca em quarta posição no país com maior proporção. No Brasil essa taxa é bem menor, de 1,41.

Hoje no país são 57 áreas de atuação reconhecidas pela CME, que derivam das 54 especialidades médicas. Nos próximos anos as áreas que devem ganhar destaque são as relacionadas diretamente à qualidade de vida e ao alívio dos sintomas dos pacientes, como medicina da dor, paliativa ou do sono. As mudanças epidemiológicas significativas dos últimos anos impulsionam essas áreas de atuação:

– À medida que se resolveram os problemas de saúde de terceiro mundo mudou o perfil das doenças, então precisa mudar o perfil da especialidade. A tendência é aumentar bastante os cuidados paliativos, por exemplo.

Menos dor, por favor

A dor está presente em todas as doenças que mais matam no mundo, além disso, a dor crônica atinge 30% da população, segundo a Organização Mundial de Saúde. Para tratar o problema foi reconhecida, em 2011, a área de atuação da medicina da dor.

– A dor aguda é somente um sintoma, como na apendicite, mas a partir do momento que vira uma dor crônica é uma doença – explica o anestesiologista Breno Santiago, de 38 anos, que atua há 12 na área.

O grande objetivo é cessar ou pelo menos diminuir a dor e assim devolver a qualidade de vida ao paciente. Para o anestesiologista, o trabalho vai além de dosar os medicamentos e realizar procedimentos minimamente invasivos para controlar a dor:

– São pacientes crônicos, que exigem do ponto de vista emocional, então precisamos nos doar mais. Muitos são depressivos, e a depressão aumenta a percepção da dor – conta o médico que atua no Cepon no controle de dor dos pacientes com câncer.

Mas a parte gratificante, segundo ele, compensa todo esforço, como quando vê um paciente que volta a realizar atividades rotineiras depois do tratamento.

Maestro da família

O médico hoje é maestro de uma orquestra, ele precisa conhecer cada instrumento muito bem, porque se algum começa a desafinar ele tem que perceber logo. Saber lidar com a diversidade é uma dificuldade. Enquanto o especialista focal se especializa num pedaço da pessoa, o médico da família se especializa na pessoa e no processo de adoecimento, com fatores emocionais, culturais e trabalhistas envolvidos.